04/04/2020 às 14h43min - Atualizada em 04/04/2020 às 14h43min

Cafeicultores do Caparaó apostam em terreiro suspenso com bambu

Alternativa Econômica

SAFRA ES
Madeira encontrada com facilidade no quintal é alternativa econômica no pós-colheita, mas produtores devem ficar atentos para evitar mofo.

A colheita de café está próxima e nas localidades produtoras já foram iniciados os cuidados com as lavouras e melhorias nas estruturas para o pós-colheita. Na região do Caparaó, alguns cafeicultores apostam na utilização do bambu na construção de terreiros suspensos para produzir grãos especiais.

É o caso de José Alexandre Lacerda, de Pedra Menina (Dores do Rio Preto- ES). O produtor viu a experiência com o bambu em viagem à Colômbia e resolveu testar na safra deste ano.

A estrutura externa continua sendo de eucalipto, mas nesta proposta de terreiro suspenso o sombrite fica solto para evitar cair café nas frestas e contaminar os lotes de cafés especiais.

 

“A gente tem bambu gigante de graça na propriedade. Além de dispensar o uso do arame, a madeira passou no teste de resistência, pois suportou o peso de uma pessoa de setenta quilos. Sem contar a facilidade para rachar o bambu”, enumera Lacerda.


 

A única preocupação do cafeicultor é o material interferir no resultado da qualidade dos grãos, o que, segundo ele, não foi verificado no país vizinho.

“A região que conheci tem muita umidade no ar e o bambu não foi problema. Os produtores usam até palha de arroz sobre o bambu e debaixo do sombrite para evitar umidade”, relata.

Diferente do experimento do José Alexandre, o gerente do escritório local do Incaper de Guaçuí e também cafeicultor, Maxuel Assis, utilizou bambu gigante como suporte do terreiro suspenso na propriedade de Gilson Quinelato
, na localidade de São Pedro de Rates, interior do município. “Só não utilizei as travessas como no modelo do José Alexandre. Ficou barato e funcionou bem”.




 

Drenar o café antes evita mofo

A recomendação é ficar atento à presença da água na estrutura em bambu.

O coordenador do Laboratório de Classificação e Degustação de Café do Ifes campus Alegre, João Batista Pavesi, destaca a necessidade de drenar bem o café lavado antes de colocá-lo no terreiro suspenso para evitar mofo.

“O bambu não pode com água, porque o mofo é fácil. Se o produtor for tirar o boia, não pode jogar café maduro diretamente sobre o bambu porque tem muita água do processo do bóia. É preciso drenar um pouco os grãos para só depois colocar no terreiro suspenso”, aconselha Pavesi.

No caso do José Alexandre Lacerda, ele usou a parte externa do bambu para cima, o que garante uma proteção melhor do molhamento, segundo o professor.

Broca

“Além da umidade, o bambu dá broca. No entanto, acredito que tudo o que está sendo feito como teste entre os cafeicultores vai trazer informações para nós avaliarmos os resultados com o tempo”, diz Pavesi.

O secretário da Associação dos Produtores de Cafés Especiais do Caparaó (Apec) e produtor da comunidade de Galileia, zona rural de Caparaó (MG), Walker Brinati, sugere tratar o bambu antes de utilizá-lo. A observação dele parte da experiência pessoal em campo.

“O ideal é cortá-lo na Lua Minguante e de preferência entre maio e agosto. É interessante deixá-lo de molho na água por quinze dias. Com esse procedimento, o bambu perde os açúcares que são fonte de alimento para a broca. O bambu não apodrece e ainda fica muito resistente”, afirma Brinati.




 

Atenção aos fungos prejudiciais à qualidade


O primeiro sinal de mofo verde no bambu acende o alerta vermelho para quem espera qualidade superior na bebida. De acordo com o professor João Batista Pavesi, os organismos decompositores de bambu são sempre os fungos, uma vez que a madeira não é atrativa para bactérias.

Dentre os fungos que atuam no bambu molhado e outras matérias orgânicas, existem aqueles atrelados a problemas na qualidade do café, como por exemplo o Penicillium e o Aspergillus.

“O produtor tem que ficar atento porque esses decompositores, além de depreciarem o café podem produzir toxinas. Existem fungos favoráveis à qualidade de café, mas não é o caso deles”, alerta o professor.

Por Leandro Fidelis



 
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